Indagações de um desertor

(Inspirado no poema de Brecht, Perguntas de um operário que lê.)

As coroas dos reis são feitas de brilhantes, eu sei, mas as balas não são de chumbo? O joalheiro faz a coroa, o ferreiro a bala, o rei veste a coroa, eu sei, mas o gatilho quem puxa?

O rei que dá as ordens, eu sei, mas quem obedece? Eu não, é você?
Foi em Roma que condenaram Jesus, foi César que o pregou na cruz?
Os escravos decidiram por si sós a escravidão? Quem os obrigou? Foram agricultores?
Em Nanquim 20 mil foram abusadas, por quem?

O Holocausto quem fez foi Hitler, eu sei, mas foi Hitler que entrou nas casas e arrastou os judeus aos campos?
Stalin mandou calar o povo, foi Stalin que calou o povo?
Canudos foi erguida e destruída, o povo construiu, quem destruiu?
É de 10 megatons a bomba que o jato carrega e o piloto quem é?
O tanque os operários produzem, são os operários que dirigem?

Em cada página uma vitória.
Quem participa dos festins?
Em cada década um grande homem.
Quem paga as despesas?

Tantos relatos
Quantas perguntas

O trem

É em noites como essa de céu nublado, de relâmpagos distantes e de frio, que sonho, sonho que estou num campo, as flores são lindas e a dama que caminha ao meu lado é deslumbrante com seu vestido amarelo da cor dos girassóis; enxergo uma casinha ornamentada e duas crianças brincando na varanda, Henrique e Julieta são os nomes. Ao caminhar um pouco, não muito, posso ver um lago que brincam garças ou espécie parecida; ah, estávamos tão felizes caminhando e sorrindo da beleza da vida, no horizonte que se estendia a nossa frente a calmaria, paz em todas as direções, até o vento era ponderado. Um pequeno pomar ou horta, não reconheço a diferença, estava completamente pronto para a colheita, a irrigação automatizada devia fazer dar frutos o ano inteiro, era perfeito. Conversávamos numa sincronia também perfeita, falávamos de banalidades e riamos, não discordávamos em nada. O mundo era só aquela caixinha pacifica e perfeita.

Quando de repente um gosto amargo se forma em minha boca, posso senti-lo; invade minhas narinas o cheiro de fumaça, noto que já estou acordado, no meio da bagunça indescritível do meu quarto, com o cigarro que antes estava na minha mão agora no chão queimando devagarzinho uma folha de papel rabiscado; O ar poluído enche meus pulmões e finalmente me dou conta e suspiro “Ah, era apenas um sonho”, estou em fim, de volta a mim, longe da trivialidade. Lanço meu olhar pela janela, lá os carros da metrópole correm como se amanhã não existisse, e só agora percebo com um sobressalto que o trem partira e eu ainda estou aqui, ele fora a qualquer lugar e era exatamente para onde eu iria, não fosse esse maldito sonho!

Náusea

Galhos de árvores e penas de aves ficam pelo caminho, o céu se abre e em passo em passo se faz o percusso e então a náusea, nasce como dor, a náusea, e os galhos de árvores se retorcem enquanto as penas das aves se transformam, então se para e o caminho é então o percurso da serpente, o céu se fecha e as estrelas junto com neblina e escuridão aparecem no céu da noite, a serpente pica e o veneno entra então nas “veias”, o veneno “parasita” o sangue e o sangue os órgãos. Cai no chão, a náusea, escorre pelo chão, a vida.

Os homens bons

Falarei dos homens bons pela tradição, não vejo qualquer amor ou paixão nas ações feitas pela tradição, muito pelo contrário, vaidade e moralidade. Quando um homem quer ensinar ao outro a ser bom, a ser caridoso, a doar-se em prol do semelhante, desconfio rapidamente, como um reflexo ou instinto, pois bem sei desse mundo e de suas criações. Encontra-se entre as multidões ou sob as câmeras homens bons falando na raiz de todo o mal, dizem ser a vaidade, a ganância, a inveja e dizem ainda que a cura é o amor e dizem então como amar, seja caridoso e doe aos pobres, seja humilde sempre, não odeie, não cobice e não inveje, quando vejo tais bons samaritanos em seus palanques eu lhes grito: dizes então para que o mal se acabe todos devem ser como tu? Esses bons conselheiros querem ser a imagem da sociedade e o reflexo do mundo, mas no entanto, ao que me parece são vaidosos e tudo que querem é serem bons entre as massas que o adoram, esse tipo faz enorme sucesso entre os jovens e as mulheres. No fundo não passam de mentirosos e seu amor não passa de um conto ou fábula, vejo-os como um entre toda a gente, em seus projetos de caridade, construindo hortas ou ajudando os necessitados no meio do grupo, do governo ou da multidão sempre a discursar: precisamos melhorar a educação, combater a criminalidade dando oportunidades aos criminosos, precisamos ainda combater a falta de ética e a corrupção, sejamos, pois, esses guerreiros da honestidade, no entanto, passam-se de bons apenas pelos discursos suas ações se limitam a ordem, ao que está escrito e proposto pelo governo, pela lei e pela cultura,

Não, não amem como estes homens, pois tudo que querem é que todos sejam iguais e os que não forem querem chamar de mal. Não deixe que lhe digam como amar, ame simplesmente, olhe para teus amigos e perceba-os como ainda uma parte de ti e ama-os como ama uma parte de ti, como ama teu corpo, teus braços, teus olhos, mente e coração. Se por acaso teu pai é bêbado, gordo e violento e chega em casa assim, não lhe diga pare, não beba, trate-se, tais conselhos servem apenas como fonte de moralidade, dizendo a ele que o bom é ser como você, não seja medíocre, pois. Ame simplesmente, o pai bêbado sabe dos males, sabe do que precisa, sabe o que quer, aconselhá-lo servirá apenas para duas coisas irritá-lo ou entristecê-lo, mas se o amas, tu reconfortas uma alma e até a engrandece.

Um homem genuíno que gosta de ajudar, ajuda os outros não para servir de exemplo ou porque é o estandarte do novo mundo, mas porque seus olhos brilham ao conceder ajuda, não pensa senão em contemplar-se da beleza da ajuda, diferentemente do tal que a todo momento quer ser ele mesmo o exemplo da caridade e se replicar no mundo. O homem honesto não busca cópias suas, ama simplesmente.

Decadência

“A Europa definha, morreu intelectualmente, morreu em potência, morreu e o que sobrou foi o corpo podre das igrejas e entre as igrejas as academias e do lado dos padres os doutores.”

Para elas

Sem elas, a luz, a vida e o mundo não existiriam, o pó se manteria como pó, os mares seriam ainda apenas águas sem razão, os homens condenados para sempre ao pior inferno, a um não amar eterno. Esses tais seres deslocados do céu para a terra pela graça da própria natureza, fizeram, então, aqui não um paraíso nem tampouco um inferno, mas um mistério, nos olhos delas se fez todo o mistério que conhecemos. Mulheres se fazem com um mistério no olhar e um outro no coração e até mesmo um desprezo pela nossa razão.

É, então, agora da irreverência, de um sorriso que se faz mais forte que um grito, de um beijo mais forte que um soco, um olhar mais poderoso que o canhão, de uma voz tão doce que controla, senão, a mão do que, então, assina a decisão ou por si só o decreto que faz a lei ou o direito.

A música se faz e elas dançam, há bagunça, há sujeira, há gritos de fome, talvez de dor, dançam ainda, ainda que chorem, lágrimas misteriosas, como o céu ou o inferno, como não se sabe se de alegria ou de dor ou mesmo dos dois, não há na verdade o que pensar, só existe a emoção e o sentimento e a música que então toca, e fazem, elas, do mundo um mistério, melhor e maior que tudo que poderia existir.

Solidão

Reserva-te a um território sem ruídos, onde não se ache uma única palavra e onde toda a voz da humanidade a ti não pareça mais que um sussurro. Só aí te encontras na mais completa solidão e é apenas aí onde as regras, os costumes e a cultura não vão te buscar, a liberdade e a sabedoria repousam aí. Há entre toda a gente uma necessidade, uma obrigação, um faz de conta invisível que nos obriga a participar do show, então não te vás entre toda a gente.

O povo há de olhar para tua reserva e zombar dela, eles não podem jamais te entender, um exemplo de liberdade ao povo não passa de uma tentativa de suicídio, mas mesmo o riso com que te zombam não passará de um sussurro em tua solidão. Quanto tu muito te encheres de tua própria companhia, caminha, pois, uma vez entre eles, percebe, portanto, uma aura e as canções que há entre o povo, nota que não há entre eles um único gesto, um mero ato que não seja fruto de um projeto, nota neles a riqueza e a felicidade e te assombra com o odor fétido de corrupção a qual eles estão acostumados, nota ainda aí na correria do povo a absoluta pressa em ultrapassar a expectativa que a ele esperam. . A vida entre o rebanho é sempre de ultrapassar as expectativas dos pastores.

Depois do passeio te encontras novamente contigo, confessa os desgostos e as tragédias com que se deparaste e goza mais uma vez da liberdade, aproveita os espinhos de tua própria presença e o frio de não ter sequer um entre o povo que te entenda. Confessa a ti que o preço da liberdade é ser incompreendido.