Estamos sempre presos entre duas realidades, uma que dita como devemos ser e outra que nos diz o que somos, o que somos, diz nosso coração, e nossa humanidade frágil e covarde é convencida pela nossa mente a poupar potência e desejo.

Nas fronteiras da nossa racionalidade ficam barreiras de dores, cicatrizes e medos, coisas que impedem nossas vontades, e por isso travamos um luta recurvados devido ao peso das morais e das enfermidades a nós dadas pela sociedade. Um homem está sempre entre duas realidades, uma força lhe diz, tua alegria e felicidade só residem nas escolhas morais, empregos e dinheiro; a segunda lhe diz, vá contra tudo e lute, mesmo que sobre tudo, mas com que força? Pois se primeiro roubam a felicidade e o prazer o que há de restar para ser esperança? Ora, a vida os empurra para o último sentido verdadeiro que ainda existe, a perpetuação, assim dizemos na sociedade pós moderna, o desgraçado encontra o fim da sua luta no casamento, aí existe toda a desculpa para não agir, não se comprometer, não viver… Quando não é isso, é o vício, bares e ópio. .. ou o pior caso, a política, quando o indivíduo passa a acreditar na política ele já deixou de acreditar em tudo, inclusive e principalmente nele mesmo.

As marcas de nossas limitações ficam evidentes todas as vezes que pensamos: podemos fazer isso, e aí lembramos que não temos coragem. Podemos falar com as pessoas, convencer elas, construir isso, mudar aquilo, por ali se aventurar, arriscar a vida, largar o emprego, ir embora, deixar tudo para trás, tornar-se um eremita… no entanto, toda vez, uma sobra em nossa consciência lembra que não temos coragem e o medo facilmente nos convence a desistir, e a vida imediatamente torna a seguir e o pensamento de um momento antes se dissipa no ar poluído.
Mas, para selar nossa covardia criamos nossos cristos, nossos santos, nossas mentiras… E dizemos por vezes que estamos mudando o mundo quando falamos em um tom alto que o capitalismo destrói a realidade , que o fascismo é uma doença e que a violência é em si o mal orquestrado, dizemos e pensamos, talvez, convencer alguém, mudar alguém, e deixamos de lado nós mesmo e vamos mudar os outros. Cada movimento para além do que é esperado é uma ida rumo ao desespero, pois se raciolmente é mais lógico viver isolado e usufruir da natureza, incondicionalmente dentro de nós uma grande força tenta prendermos a aqui e as correntes da moral estão presas em nossos ossos, é dor e desespero quando fazemos da vida o que realmente queremos, talvez só por uns poucos momentos encaramos a dor de sermos nós mesmo, são nossos momentos de liberdade… viver sendo nós mesmo é um ato de grandeza, mas também é de dor e desespero.

Se suportamos a dor e o desespero, se encararmos a vida e a moral, encontramos o caminho certo para sermos grandes, eis o caminho de nossos sonhos, por aí seguimos, todo o amor repousa além das fronteiras, então se por aí conseguirmos seguir encontraremos toda esperança e potência, e também a nós mesmos. Só sabemos, por enquanto, que é difícil suportar mais que um momento sendo integralmente nós mesmo…

O Jogador

A roleta gira, nossa vida sobre a mesa
É dessa vez a vez do rubro, o mundo
Num instante o destino num momento
É dessa vez a vez do rubro

Os dados no ar, nosso amor num lance de sorte
Olhos acessos ligados no tablado, violetas lá fora
O universo aqui dentro, num lance de dados
Num beijo do acaso, a nossa vida

A roleta gira, os dados rolam, as cartas se misturam e
E em nossas mãos a sorte se embaralha e as vezes um sete de copas e um dois de paus junto de um riso vencem um trinca de reis

O coração bate, o ar acaba, os músculos se comprimem, a calma se vai, num lance de olhar, no aroma de uma flor, a nossa vida nas mãos de uma mulher.

Indagações de um desertor

(Inspirado no poema de Brecht, Perguntas de um operário que lê.)

As coroas dos reis são feitas de brilhantes, eu sei, mas as balas não são de chumbo? O joalheiro faz a coroa, o ferreiro a bala, o rei veste a coroa, eu sei, mas o gatilho quem puxa?

O rei que dá as ordens, eu sei, mas quem obedece? Eu não, é você?
Foi em Roma que condenaram Jesus, foi César que o pregou na cruz?
Os escravos decidiram por si sós a escravidão? Quem os obrigou? Foram agricultores?
Em Nanquim 20 mil foram abusadas, por quem?

O Holocausto quem fez foi Hitler, eu sei, mas foi Hitler que entrou nas casas e arrastou os judeus aos campos?
Stalin mandou calar o povo, foi Stalin que calou o povo?
Canudos foi erguida e destruída, o povo construiu, quem destruiu?
É de 10 megatons a bomba que o jato carrega e o piloto quem é?
O tanque os operários produzem, são os operários que dirigem?

Em cada página uma vitória.
Quem participa dos festins?
Em cada década um grande homem.
Quem paga as despesas?

Tantos relatos
Quantas perguntas

O trem

É em noites como essa de céu nublado, de relâmpagos distantes e de frio, que sonho, sonho que estou num campo, as flores são lindas e a dama que caminha ao meu lado é deslumbrante com seu vestido amarelo da cor dos girassóis; enxergo uma casinha ornamentada e duas crianças brincando na varanda, Henrique e Julieta são os nomes. Ao caminhar um pouco, não muito, posso ver um lago que brincam garças ou espécie parecida; ah, estávamos tão felizes caminhando e sorrindo da beleza da vida, no horizonte que se estendia a nossa frente a calmaria, paz em todas as direções, até o vento era ponderado. Um pequeno pomar ou horta, não reconheço a diferença, estava completamente pronto para a colheita, a irrigação automatizada devia fazer dar frutos o ano inteiro, era perfeito. Conversávamos numa sincronia também perfeita, falávamos de banalidades e riamos, não discordávamos em nada. O mundo era só aquela caixinha pacifica e perfeita.

Quando de repente um gosto amargo se forma em minha boca, posso senti-lo; invade minhas narinas o cheiro de fumaça, noto que já estou acordado, no meio da bagunça indescritível do meu quarto, com o cigarro que antes estava na minha mão agora no chão queimando devagarzinho uma folha de papel rabiscado; O ar poluído enche meus pulmões e finalmente me dou conta e suspiro “Ah, era apenas um sonho”, estou em fim, de volta a mim, longe da trivialidade. Lanço meu olhar pela janela, lá os carros da metrópole correm como se amanhã não existisse, e só agora percebo com um sobressalto que o trem partira e eu ainda estou aqui, ele fora a qualquer lugar e era exatamente para onde eu iria, não fosse esse maldito sonho!

Náusea

Galhos de árvores e penas de aves ficam pelo caminho, o céu se abre e em passo em passo se faz o percusso e então a náusea, nasce como dor, a náusea, e os galhos de árvores se retorcem enquanto as penas das aves se transformam, então se para e o caminho é então o percurso da serpente, o céu se fecha e as estrelas junto com neblina e escuridão aparecem no céu da noite, a serpente pica e o veneno entra então nas “veias”, o veneno “parasita” o sangue e o sangue os órgãos. Cai no chão, a náusea, escorre pelo chão, a vida.

Os homens bons

Falarei dos homens bons pela tradição, não vejo qualquer amor ou paixão nas ações feitas pela tradição, muito pelo contrário, vaidade e moralidade. Quando um homem quer ensinar ao outro a ser bom, a ser caridoso, a doar-se em prol do semelhante, desconfio rapidamente, como um reflexo ou instinto, pois bem sei desse mundo e de suas criações. Encontra-se entre as multidões ou sob as câmeras homens bons falando na raiz de todo o mal, dizem ser a vaidade, a ganância, a inveja e dizem ainda que a cura é o amor e dizem então como amar, seja caridoso e doe aos pobres, seja humilde sempre, não odeie, não cobice e não inveje, quando vejo tais bons samaritanos em seus palanques eu lhes grito: dizes então para que o mal se acabe todos devem ser como tu? Esses bons conselheiros querem ser a imagem da sociedade e o reflexo do mundo, mas no entanto, ao que me parece são vaidosos e tudo que querem é serem bons entre as massas que o adoram, esse tipo faz enorme sucesso entre os jovens e as mulheres. No fundo não passam de mentirosos e seu amor não passa de um conto ou fábula, vejo-os como um entre toda a gente, em seus projetos de caridade, construindo hortas ou ajudando os necessitados no meio do grupo, do governo ou da multidão sempre a discursar: precisamos melhorar a educação, combater a criminalidade dando oportunidades aos criminosos, precisamos ainda combater a falta de ética e a corrupção, sejamos, pois, esses guerreiros da honestidade, no entanto, passam-se de bons apenas pelos discursos suas ações se limitam a ordem, ao que está escrito e proposto pelo governo, pela lei e pela cultura,

Não, não amem como estes homens, pois tudo que querem é que todos sejam iguais e os que não forem querem chamar de mal. Não deixe que lhe digam como amar, ame simplesmente, olhe para teus amigos e perceba-os como ainda uma parte de ti e ama-os como ama uma parte de ti, como ama teu corpo, teus braços, teus olhos, mente e coração. Se por acaso teu pai é bêbado, gordo e violento e chega em casa assim, não lhe diga pare, não beba, trate-se, tais conselhos servem apenas como fonte de moralidade, dizendo a ele que o bom é ser como você, não seja medíocre, pois. Ame simplesmente, o pai bêbado sabe dos males, sabe do que precisa, sabe o que quer, aconselhá-lo servirá apenas para duas coisas irritá-lo ou entristecê-lo, mas se o amas, tu reconfortas uma alma e até a engrandece.

Um homem genuíno que gosta de ajudar, ajuda os outros não para servir de exemplo ou porque é o estandarte do novo mundo, mas porque seus olhos brilham ao conceder ajuda, não pensa senão em contemplar-se da beleza da ajuda, diferentemente do tal que a todo momento quer ser ele mesmo o exemplo da caridade e se replicar no mundo. O homem honesto não busca cópias suas, ama simplesmente.